Conexão Cristã: Brasil e seus Joões

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Roberto Menescal me ligou convidando para um almoço, onde ele queria me mostrar dois produtos no qual estava trabalhando. Um com a Leila Pinheiro e Rodrigo Santos cantando Cazuza em Bossa, resultado de uma turnê primorosa no eixo Rio-sampa e outro disco lançando uma cantora inédita de voz poderosa e interpretação ímpar.

Como todo encontro com ‘Menesca’ deslizamos tarde adentro em histórias maravilhosas da nossa música. Entre a entrada e o prato principal, me contou da amizade com Nara Leão, do processo de composição de ‘Barquinho’ e, até depois da sobremesa seguimos falando de seu encontro místico com João Gilberto.

Nem Roberto, nem eu fazíamos ideia de que pouco mais de um mês depois, essa voz miúda e cérebro brilhante de João se calariam para sempre num apartamento modesto, onde se manteve recluso em seus últimos anos de vida.

No último dia 06 de julho, aos 88 anos, um dos nomes maiores da nossa música, João Gilberto, morreu de causas naturais e deixou para sempre seu legado na construção musical como pedra fundamental da cultura nacional.

O baiano, natural da cidade de Juazeiro, integrou o grupo vocal Garotos da Lua, em 1950, quando se mudou para o Rio de Janeiro. Dono de uma personalidade difícil, comum aos gênios, foi demitido do conjunto dois anos depois, quando foi contratado pela gravadora Copacabana.

Naquela época, João cantava a puros pulmões tendo sua voz comparada a de cantores como Orlando Silva, mas andava descontente com os rumos de sua carreira e voltou à Juazeiro, onde seguiu persistentemente uma ‘batida perfeita’ para seu violão.

Menescal me contou que tanto ele quanto Carlos Lyra e Baden Powel tentavam reproduzir os instrumentos do samba no violão, sem sucesso, quando João Gilberto reapareceu no Rio, em uma das festas no apartamento de Nara, tocando sua autoral ‘Bim Bom’, trazendo a resposta definitiva à equação musical: “O samba tem inúmeros instrumentos, mas o que acredito que seja o ideal para seguirmos nos acordes é o tamborim”. Sentenciou João Gilberto, fazendo nascer assim o ritmo que levou a música brasileira para o mundo, a Bossa Nova.

Tão logo recebi a notícia da morte de João, em meio à plurais e merecidíssimas homenagens,  minha memória capitou a alegria desse almoço com Menescal e me empurrou para um pensamento imediato: “Por que é que não homenageamos nossos Joões em vida?”.

Aí me lembrei de outro João, para nossa felicidade, muitíssimo cheio de vida e em crescente produção musical, porém sem a devida visibilidade e espaço que merece nos veículos de mídia e rankings de premiação fonográfica, o cantor e compositor João Alexandre.

Tendo iniciado sua carreira cerca de três décadas depois da estreia do “João de Juazeiro”, João Alexandre nasceu em uma família evangélica em Campinas, interior de São Paulo e se lançou na música influenciado pelo grupo ‘Vencedores Por Cristo’, cuja proposta era a de inserir elementos da cultura brasileira na música cristã.

Dono de uma sensibilidade poética pungente, João Alexandre se vale de metáforas poderosas em acordes sofisticados para tocar a alma de quem o ouve com uma mensagem vivífica e salvadora, capaz de evangelizar simplesmente através da beleza de sua música.

Em 1982 formou um grupo chamado Pescador, que chegou a lançar um disco intitulado ‘Contraste’, formado de canções com vocais complexos e harmonias que beberam explicitamente das estruturas harmônicas da MPB.

Ao se casar com Tirza Rosa, intérprete ágil de voz melodiosa e timbre singular, constrói uma belíssima parceria de arte e de vida que segue longeva até hoje, brindando os ouvidos mais atentos com belíssimas canções de caráter cristão que estão à altura da mais refinada Bossa secular.

Sucessos como “Teus Altares” e “Essência de Deus”, entre tantas de sua autoria, seguem como louvores ‘obrigatórios’ em inúmeras igrejas Brasil afora, legitimando a verve congregacional de sua obra, que tem uma essência muito particular e de poderosa assinatura autoral.

Seja abordando temas provocadores como em “Você pode Ter” ou até políticos como em “Pra Cima, Brasil”, João Alexandre se utiliza da música como instrumento, não apenas de fé, mas de combustível para reflexões de consciência social, convocando o povo de Deus a tomar posturas cristãs a partir da razão.

Premiado com o troféu ‘Talento’, em 2006, na categoria Melhor Arranjo, com a música “A Volta do Filho Pródigo”, de Gerson Borges e merecidamente homenageado na série ‘Deezer Legends’ pelo app de música Deezer, em novembro do ano passado, João mantém uma vida reservada longe das badalações dos veículos de massa, parturejando sua obra como um artesão silencioso, e ainda assim influenciando as gerações posteriores, que o enxergam como um mentor importante, tal qual João Gilberto para os seus.

João Alexandre merece, por tanto, se fazer lembrado e muito saudado em vida por seu trabalho que eleva a música cristã à patamares técnicos pouco galgados pela gospel music made in Brazil. Se João Gilberto está no pilar da construção da Bossa Nova, João Alexandre é pedra angular da música evangélica, equiparando forças distintas de um mesmo povo que ainda encontra na arte o abrigo necessário para sobreviver às intempéries políticas que assolam nossa nação.

Por fim, fé e razão de mãos dadas dando sentido à existência nossa, mostrando a essa Pátria Amada que um filho teu não foge a luta e com quantos Joões se constrói a mais poderosa música popular brasileira para além das crenças e religiões.

Por Márcio Moreira

Confira o Deezer Legends de João Alexandre

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