DESCONFORTOS NECESSÁRIOS – Luciano Subirá – ORVALHO.COM

Uma nova geração mima seus filhos e trata-os como sanguessugas, que vivem para sugar a família, e não para colaborar com ela. Embora toda generalização nos faça falhar com alguns, hoje em dia, o senso comum sobre criação de filhos é esse.

Distanciam-se – e muito – de nós aqueles dias em que os filhos levantavam cedo para tirar o leite da vaca, alimentar os animais e ajudar os pais a manter ativa a provisão do lar. Sei que os tempos mudaram e não prego um retorno à roça ou ao estilo de vida de antigamente. O que pretendo mostrar é que, mesmo em um mundo urbano e altamente tecnológico como o que vivemos, a necessidade de transmitir aos filhos responsabilidades como parte da educação não deveria ter mudado.

Não importa se a família é abastada o suficiente para ter inúmeros empregados em casa, todo filho e filha deveriam ser submetidos às tarefas domésticas! Quando Paulo declarou que o filho, enquanto menor, em nada difere de um escravo (Gl 4.1,2), não se referia apenas à posição de não poder acessar a herança. Os filhos também eram incumbidos de responsabilidades e, assim como os servos, trabalhavam para seus pais. Na parábola do filho pródigo, mesmo tendo muitos servos, vemos que aquele pai delegava trabalho aos seus filhos (Lc 15.29)

Aliás, esse exemplo não é incomum nas Escrituras. O próprio Jesus cita em outra de Suas parábolas:

“E que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Chegando-se ao primeiro, disse: Filho, vai hoje trabalhar na vinha. Ele respondeu: Sim, senhor; porém não foi. Dirigindo-se ao segundo, disse-lhe a mesma coisa. Mas este respondeu: Não quero; depois, arrependido, foi. Qual dos dois fez a vontade do pai? Disseram: O segundo. Declarou-lhes Jesus: Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem no reino de Deus.” Mateus 21.28-31

O trabalho engrandece, aperfeiçoa, ajuda a desenvolver não apenas habilidades, como também maturidade. Entretanto, pais que poupam seus filhos do desconforto de tarefas domésticas, ou mesmo de trabalharem cedo, estão, na verdade, eximindo-os de crescer. Que tipo de esposa será uma filha que cresceu sem nunca ter lavado a louça ou cozinhado alguma coisa? A mulher virtuosa de Provérbios 31 não vai “possuí-la” no dia do casamento!

Requer treinamento, ensino dos pais, exercício durante a vida de solteira.

Da mesma forma, como um garoto que nunca colocou a mão na massa e cresceu só jogando video game se tornará um trabalhador dedicado, da noite para o dia? Ele se transformará em passe de mágica, simplesmente porque casou? Claro
que não! Esse tipo de habilidade se desenvolve e para isso, demanda tempo e treinamento

Todo crescimento, avanço e progresso proporcionarão o que quero denominar de desconfortos necessários. Mesmo na vida espiritual. Muitas vezes, dores e tristeza precedem e pavimentam a chegada de alegria e da realização. Observe esta declaração de Jesus:

“Em verdade, em verdade eu vos digo que chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria. A mulher, quando está para dar à luz, tem tristeza, porque a sua hora é chegada; mas, depois de nascido o menino, já não se lembra da aflição, pelo prazer que tem de ter nascido ao mundo um homem. Assim também agora vós tendes tristeza; mas outra vez vos verei; o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém poderá tirar.” João 16.20-22

O Mestre falava de Sua partida, da dor e da tristeza que os discípulos teriam de enfrentar. Contudo, encorajava-os a atentar para aquilo que estava adiante, por vir. Como exemplo, cita a mulher quando entra em trabalho de parto e passa por um desconforto necessário para que o novo estágio de conquista e realização se concretize. Tal declaração não se limita somente àqueles discípulos, mas também aos nossos dias. Ela se encaixa em muitos aspectos e distintos momentos de nossa própria vida – e sempre se relacionará ao nosso aperfeiçoamento

CORRECÃO

Consideremos a questão da correção. É inegável que, inicialmente, ela não produz alegria ou bem-estar. Também é incontestável que, posteriormente, alegria e bem-estar surgirão como resultados da aplicação dela, por meio da permissão desse desconforto necessário ao crescimento dos filhos. Repare na instrução bíblica:

“Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça.” Hebreus 12.11

Observe que o propósito da correção, que é um ato de amor dos pais, é o aperfeiçoamento dos filhos. Vamos voltar alguns versículos para analisar o contexto:

“E estais esquecidos da exortação que, como a filhos, discorre convosco: Filho meu, não menosprezes a correção que vem do Senhor, nem desmaies quando por ele és reprovado; porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe. É para disciplina que perseverais (Deus vos trata como filhos); pois que filho há que o pai não corrige? Mas, se estais sem correção, de que todos se têm tornado participantes, logo, sois bastardos e não filhos. Além disso, tínhamos os nossos pais segundo a carne, que nos corrigiam, e os respeitávamos; não havemos de estar em muito maior submissão ao Pai espiritual e, então, viveremos? Pois eles nos corrigiam por pouco tempo, segundo
melhor lhes parecia; Deus, porém, nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade.” Hebreus 12.5-10

De que correção a Biblia está falando? O texto apresenta um paralelo entre a correção dos pais terrenos e a do Pai celestial. Há dois níveis de correção: natural e espiritual; entretanto, a base de entendimento da correção espiritual é a natural. Assim como o pai terreno ama seus filhos a ponto de importar-se em corrigí-los para que cresçam, semelhantemente o Pai celestial ama Seus filhos a ponto de corrigí-los para que sejam participantes de Sua santidade.

Contudo, o que acontece quando os pais resolvem poupar seus filhos da disciplina? A Palavra de Deus revela as consequências naturais da negligência: filhos sem limites envergonharão seus pais e não crescerão em
sabedoria ou maturidade.

“A vara e a disciplina dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma vem a envergonhar a sua mãe. Quando os perversos se multiplicam, multiplicam-se as transgressões, mas os justos verão a ruína deles. Corrige o teu filho, e te dará descanso, dará delícias à tua alma.” Provérbios 29.15-17

“A insensatez está ligada ao coração da criança, mas a vara da disciplina a livrará dela”. Provérbios 22.15 NVI

Além de sequelas e impactos na vida natural, ainda há consequências espirituais, fato que muitos pais ignoram. O questionamento a ser feito é “Se a pessoa não cresceu com disciplina e correção dos pais terrenos, como entenderá e aceitará a correção do Pai celestial?”

Quando os pais poupam seus filhos do desconforto – mais que necessário – da correção, estão impedindo que eles cresçam natural e espiritualmente. Há toda uma geração de crentes mimados que não consegue entender ou mesmo aproveitar a correção de Deus. Detalhe: não é porque os pais terrenos foram omissos que o Pai celestial também o será. De modo algum!

Observe como Paulo aborda o desconforto da correção:

“Porquanto, ainda que vos tenha contristado com a carta, não me arrependo; embora já me tenha arrependido (vejo que aquela carta vos contristou por breve tempo), agora, me alegro não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus, para que, de nossa parte, nenhum dano sofrêsseis. Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte. Porque quanto cuidado não produziu isto mesmo em vós que, segundo Deus, fostes contristados! Que defesa, que indignação, que temor, que saudades, que zelo, que vindita! Em tudo destes prova de estardes inocentes neste assunto.” 2 Coríntios 7.8-11

Este será sempre o efeito imediato da correcão: tristeza. Nunca vi meus filhos festejarem porque foram corrigidos. Contudo, o efeito posterior da correção não pode ser ignorado – vi, em meus próprios filhos, o crescimento gerado pela repreensão. Assim também tenho visto, com o tempo, a gratidão deles pelo que aprenderam e pelo quanto cresceram, isso porque seus pais se importaram o suficiente a ponto de corrigi-los.

Autor: Luciano P. Subirá. É o responsável pelo Orvalho.Com – um ministério de ensino bíblico ao Corpo de Cristo. Também é pastor da Comunidade Alcance em Curitiba/PR. Casado com Kelly, é pai de dois filhos: Israel e Lissa.



Fonte: Orvalho.com