Drogas e ‘cura’: mulheres detalham supostos abusos de líder espiritual – Notícias



Dirigente da Igreja Reino do Sol, em São Paulo, Antônio Alves Marques Júnior, conhecido como Gê Marques, 62 anos, está sendo investigado pela polícia após mulheres o denunciarem por abuso sexual em rituais religiosos que envolvem uso de drogas.


O líder espiritual, cujas práticas religiosas misturam elementos de umbanda e da seita conhecida como Santo Daime (com uso de um chá alucinógeno), teria cometido os crimes entre os anos de 2005 e 2015. Segundo o MP-SP (Ministério Público de São Paulo), quatro mulheres já fizeram denúncias contra ele, que nega as acusações.


Os primeiros relatos de supostas vítimas surgiram em 2016, e o MP pediu a abertura de um inquérito, que foi instaurado em 2017 no 14º Distrito Policial de São Paulo (Pinheiros). O processo corre em segredo de Justiça e, por isso, a polícia não comenta o assunto.  Segundo o MP-SP (Ministério Público de São Paulo), quatro mulheres já fizeram denúncias contra o líder espiritual, que nega as acusações.


A primeira suposta vítima de Marques, no entanto, tem reunido relatos de outras mulheres que teriam sofrido abusos do suspeito. Até o momento, segundo ela, 15 afirmaram ter sido vítimas dele. Duas dessas vítimas conversaram com o R7 e descrevem como o suspeito agia. Na reportagem, elas aparecerão com nomes fictícios para que suas identidades sejam preservadas. 


Demora para “entender”


Beatriz*, a primeira mulher a denunciar Gê Marques, afirma ter demorado para entender que estava sendo vítima de abuso sexual e, por isso, também demorou para fazer a denúncia formal ao MP.


“Quando decidi denunciar, tinha conhecimento de outros casos. Sabia de pelo menos quatro, além de mim”, diz. “Na verdade, ter conhecimento de outros casos foi bastante importante para entender que eu não tinha vivido uma loucura da minha cabeça. Me ajudou a validar que eu tinha sofrido estupros, que aquilo tinha sido abuso.”


Outra suposta vítima, Aline afirma que o líder espiritual conquistava a confiança das mulheres, algumas menores de idade, antes de cometer os abusos. “Ele cultivava uma relação mais paternal, sacerdotal, no sentido de cuidado mesmo. Às vezes, fazia isso com meninas com menos de 18 anos. Esse cultivo de confiança era feito dentro do próprio ritual”, descreve.


Perfil dos supostos abusos


Os supostos crimes sexuais teriam começado no ano de 2005, e o último relato que se tem conhecimento é de 2015. Os abusos teriam acontecido em lugares como na sede da igreja, na casa de Gê Marques e até mesmo em motéis. As supostas vítimas teriam entre 15 e 31 anos.


Em todos os casos, sempre segundo relatos das supostas vítimas, o dirigente da Igreja Reino do Sol usou a religião como isca para atraí-las. “Isso é muito complexo. Todas nós naturalizamos os abusos porque achávamos que era uma coisa estranha que tínhamos vivido. Muitas de nós ficamos sem entender e, por isso, algumas inventaram narrativas de que aquilo fez parte de alguma cura espiritual”, Beatriz. “Algumas vezes, as pessoas começaram a inventar coisas para justificar o que tinham vivido. Acreditavam estar num caminho de cura. Ficamos muito confusas”, continua.


“Ele fazia as coisas usando o fator surpresa, sempre dentro de uma dinâmica em que confundia a gente. Era uma massagem, uma terapia, uma vivência espiritual. Sempre foi dentro desses contextos que ele abusou da gente. Nunca foi num contexto em que ele convidou a gente abertamente, tipo: ‘estou a fim de você’. Sempre foi velado. Por isso a gente fala em sexo mediante fraude”, completa.


De acordo com Aline, Marques se aproveita de pessoas que realmente acreditam na comunidade e só praticam o bem. “A pessoa está lá cantando, lavando o chão, cuidando de quem está doente, faz campanha para festa da igreja nova.”


Segundo ela, os rituais funcionavam justamente por conta do trabalho dessas pessoas. “Tinha uma galera que tomava conta e dava o sangue. Ali, as pessoas acreditavam que estavam ficando puras. Buscavam ajuda e ficavam ali porque tinham uma confiança no caminho de amor, de solidariedade. Era um ambiente seguro para muitos, e isso também era uma maneira de cometer o abuso.”


Uso de drogas ilícitas


As denúncias das supostas vítimas têm outro ponto em comum: todoas alegam que Gê Marques as incentivava a usar drogas ilícitas, como maconha, LSD e ecstasy, além da bebida ayahuasca (conhecida como chá de Santo Daime) para que ficassem mais vulneráveis.


“Na maior parte das vezes, ele nos fazia usar algo que alterava a consciência, como álcool, LSD, ecstasy e outras drogas ilícitas, para rebaixar a nossa capacidade de resposta. A gente já tinha uma capacidade diminuída de responder pela relação hierárquica”, diz Beatriz. “Todas nós confiávamos absolutamente nele. A gente ficava sem entender. Ele é um cara muito inteligente, um intelectual, com uma lábia muito forte. A gente ficava até se perguntando: ‘ele é tão sábio que acho que não captei, mas deve ser algo bom’.”


Aline relata situação parecida: “Ele usava drogas ilícitas como LSD, ecstasy… Pessoas que nunca tinham usado essas drogas aceitaram usar porque confiavam nele”, diz. “Ele convida [a vítima] para fazer coisas como se fosse algo corriqueiro. E nos obriga a fazer um pacto de segredo. Ninguém pode saber. É um abuso de confiança, ele faz a pessoa achar que está tudo bem. A pessoa faz o que ele sugere porque já confiava nele antes. Ele cria um vínculo, fala que é amor”, explica.


Ainda de acordo com Aline, Marques também fazia o que chama de uma “administração posterior da vítima”, para “garantir que estava tudo bem e que a pessoa não comentaria com ninguém”.


Ela conta que Gê Marques tinha outro padrão para os abusos, além do uso de drogas ilícitas. “Ao final de um trabalho espiritual, as pessoas, acho que de qualquer religião, ficam mais amorosas. E era muito comum ele dar aquele abraço mais longo, mais apertado. E, de repente, quando a pessoa dá aquele lugar de abertura, ele invade nessa dinâmica ambígua. Ele segura e demora. Está ali aproveitando essa força de sensibilização. Era um jeito de forjar um abuso dentro do ritual.”


Medo de quebrar o silêncio


Ao R7, as entrevistadas contaram que demoraram para quebrar o silêncio por medo. “Somos mulheres vítimas, oprimidas numa sociedade machista, e ele é um cara muito poderoso, com uma comunidade espiritual toda em torno dele. E fui eu que tive consciência disso primeiro e comecei a falar com outras vítimas”, diz Beatriz.


Segundo ela, a própria comunidade duvidou das acusações. “Sofri muita retaliação quando saí do silêncio. Fui muito difamada pelo Gê e pela comunidade. Ele fez de tudo para tirar a credibilidade da minha palavra”, garante. “Por exemplo: já fiz um ensaio sensual, e eles pegaram fotos minhas do ensaio pra dizer que eu era prostituta e que ele não tinha abusado de mim coisa nenhuma”, relata.


As supostas vítimas relataram ainda o medo de contar para os familiares que tinham sofrido abuso. “Contei para minha mãe. Meu pai ainda nem sabe. É tudo muito delicado. As minhas irmãs sabem porque são duas mulheres do meu lado”, diz Beatriz.


Ela afirma ter sido repreendida após fazer as denúncias. “A sociedade não está preparada para acolher vítimas de abuso, especialmente de lideranças espirituais. Porque as pessoas têm uma dependência emocional da instituição religiosa em questão”, afirma. “Um cara que tem poder acaba abusando de pessoas. A gente foi ‘linchada’ quando expôs.”


Denúncia no Ministério Público


Beatriz diz que decidiu formalizar a denúncia para que tivesse credibilidade dentro da comunidade. “Entendi que precisava fazer isso justamente porque a comunidade espiritual estava assim: ‘quem são essas malucas falando essas mentiras sobre o nosso líder espiritual?’. Então, realmente precisei formalizar, pois não somos malucas.”


Ainda de acordo com as supostas vítimas, mais denúncias devem surgir nos próximos dias. “Certamente, com a repercussão do caso, vão aparecer mais mulheres. Vamos conseguir reunir mais vítimas, que ainda nem sabem que sofreram abuso ou que sabem e estão em silêncio.”


Ambas as entrevistadas dizem que as investigações estão lentas, mas que “agora que a mídia está olhando, o MP realmente vai pegar o caso como deve”. O Ministério Público não comentou o caso até a conclusão desta reportagem.


Defesa de líder ameaça processo


A reportagem tenta falar com Gê Marques, sem sucesso, desde a última quarta-feira (16). Seu advogado, Luiz Eduardo Kuntz, enviou uma nota:


“A respeito da matéria que se pretende publicar acerca de supostos casos de abusos e agressões sexuais cometidos por nosso constituído, Sr. Antonio Alves Marques, agradecemos a oportunidade e afirmamos que, caso seja veiculada nos termos da narrativa que está sendo difundida na imprensa, (1) estará calcada em distorções absolutamente equivocadas e de má-fé, construindo cenários que nunca ocorreram; (2) impressiona a desfaçatez e leviandade como os relatos foram construídos, alterando completamente a verdade, para enxovalhar, com o máximo de dano possível, sua honra e reputação; (3) foram mantidas relações de amizade e proximidade com todos os frequentadores do Reino do Sol, relações estas sempre pautadas pelo respeito e urbanidade; (4) os fatos, se necessário e oportunamente, serão completamente esclarecidos perante as autoridades competentes e, (5) todos os envolvidos nesta grave e irresponsável acusação serão oportunamente responsabilizados civil e criminalmente.”


Leia a seguir trechos de relatos reunidos por Beatriz de quatro outras supostas vítimas do líder espiritual:

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“Um passe energético” 


“Eu passava sempre em atendimento para passe com o próprio Gê Marques, que se dizia no momento incorporado pelo caboclo ‘Águia Dourada’ (…) Apenas me chamou a atenção o fato de que não haveria mais ninguém nesse ritual, não precisava ir de branco nem levar ervas (…) [Gê Marques] me serviu o Daime e me convidou a cantar alguns hinos e senti que estava mesmo em ritual. Depois, propôs práticas corporais seguida de uma massagem. Fiquei bastante alterada com a força do Daime (…) Depois, ele propôs um ‘exercício de sensibilidade mediúnica’ em que ficávamos frente a frente, e cada um colocava a mão em alguma parte do corpo do outro, parte do corpo que sentisse que estava com fragilidade e precisando receber energia, como um passe energético. Coloquei a mão no coração dele, e então ele moveu minha mão colocando em seu órgão genital (…) Saí de lá muito abalada, chorando e ainda me sentindo muito alterada por conta do Daime (…) Fiquei muito tempo observando e, como ele não tentou mais nada, fui relaxando e acabei achando que aquele havia sido um caso isolado.”


“Não sou o Lobo Mau” 


“Ele me convidou para um fazer um atendimento em sua casa e disse que não me preocupasse (…) Ao subirmos para o seu apartamento, rapidamente ele preparou um chá verde pra nós dois, e disse que esse ‘procedimento’ seria normalmente com Daime, mas, como eu não tomava a bebida, poderia ser com chá (…) O ‘procedimento’ foi basicamente massagem corporal. Em um certo momento ele tirou minha blusa e ‘massageou’ meus seios, depois tirou minha calça com bastante agressividade (…) Só comecei a desconfiar quando ele tirou a própria calça e deitou-se sobre mim. Estava muito desconfortável, e ele começou a me fazer perguntas. Me pediu para dizer uma cor, pensei em vermelho e disse azul, me pediu pra dizer um animal, pensei em onça e disse cavalo. Depois ele disse: ‘Eu não sou o Lobo Mau querendo comer a Chapeuzinho’.”


“Não sabia como reagir”


“Ele me ofereceu para fazer terapia gratuita com ele em sua residência. Lembro-me de olhar sua estante de livros e comentar que não sabia deste ofício dele. Ele respondeu que ali costumava realizar atendimentos individuais. Posteriormente, descobri que ele não possui formação na área. Em 2009, ao final de uma sessão de terapia, ao me direcionar para a saída, localizada no final de um corredor estreito, antes de abrir a porta, ele me encurralou na parede e me beijou. Depois chegou a passar a mão em meu corpo me encarando e chegou a fazer algum comentário estúpido como ‘gostosa’. Fiquei em choque (…) Posteriormente, ele me convidou para um jantar em sua casa, num tom de amizade. Ele ofereceu um champanhe para acompanhar, que estava reservado para esta ocasião. Depois, ofereceu um cigarro de canabis para fumar (…) A certa altura, ele deu a ideia de fazermos uma massagem em seu quarto. Organizou no chão um espaço com uma colcha. Começou a fazer a massagem e não demorou muito começou a tirar minha roupa e tentava me beijar. Não reagi, não sabia como reagir. Não me lembro como saímos do chão para a cama. Na cama, vestiu a camisinha, realizou a penetração e depois de alguns minutos acabou (…) Ele me levou de carro para casa, pois já era tarde da noite. Antes de eu entrar em casa, ele disse que seria bom mantermos segredo em relação ao ocorrido, que meus pais não iriam entender.”


“Eu sentia nojo e repulsa”


“Os abusos dos quais que fui vítima começaram no Natal de 2008, quando eu tinha 24 anos e ele tinha por volta de 53. Gê Marques me convidou para tomarmos um suco ou um café durante a tarde. Éramos vizinhos. Nos encontramos a tarde e depois de alguma conversa, ele me disse que tinha ganhado um presente de um amigo e me perguntou se eu gostava de tomar ecstasy. Eu nunca tinha tomado. Ele então me ofereceu para tomar com ele. Eu não quis e ele insistiu (…) Eu estava resistente e realmente não estava a fim, mas, após um tempo que ele continuou insistindo, me convenceu a tomar metade do ecstasy. Pouco depois me convidou para conversarmos no quarto. Eu achei inadequado e manifestei meu incômodo. Ele disse pra eu relaxar e não me preocupar, que não tinha nada demais e que a cama só era o lugar mais confortável da casa (…) Depois de entrar no quarto ele começou a querer me seduzir e veio me agarrar, sempre no estilo ‘não sejamos moralistas’, ‘ninguém vai saber’. Ele então chegou mais perto, levantou minha blusa, passou a mão nos meus seios e quis lambê-los. Eu não conseguia reagir, fiquei paralisada, eu sentia nojo e repulsa, mas não consegui sair dali, apenas empurrei seu rosto quando ele começou a lamber meus seios. Pedi pra ele parar. Então ele propôs uma dinâmica de sentarmos e nos olharmos nos olhos. Eu já queria ir embora e estava achando péssimo aquilo tudo. Fizemos a dinâmica e depois ele voltou a me assediar, dizendo que queria fazer uma massagem para eu relaxar. No meio da massagem, ele começou a passar a mão em partes íntimas e me senti invadida e desrespeitada. Decidi ir embora, pedi novamente para ele parar, sentei na cama para sair, e aí ele levantou rápido, veio até a minha frente, tirou seu pênis para fora e começou a se masturbar bem na frente da minha cara. Permaneceu se masturbando por alguns instantes, enquanto eu estava atônita. Eu senti asco.”


*A pedido, todos os nomes das supostas vítimas foram substituídos por nomes fictícios

Fonte: R7