Os ministros do culto levítico (Lição 3)

Lição 3 - Os ministros do culto levítico

Lição 3 – Os ministros do culto levítico

Você está lendo o livro de Levítico? Quando lemos o livro na íntegra, temos uma melhor visão e compreensão dos estudos que fazemos semanalmente na Escola Dominical. Esta semana nosso estudo é sobre os ofícios dos levitas e dos sacerdotes. Procuramos fazer não apenas um estudo descritivo, mas também trazer uma aplicação prática ao contexto cristão, assim garantimos que mais que informação sobre os ministros do culto levítico, estaremos recebendo instrução de como nós, ministros do culto cristão, devemos nos portar diante de Deus, da Igreja e dos homens. Bom estudo!

Antes de prosseguirmos, gostaria de te apresentar um conteúdo que pode lhe ajudar a melhorar suas aulas na Escola Bíblica Dominical. O curso produzido pela Universidade da Bíblia chama-se Formação de Professores para Escola Bíblica Dominical e tem matérias sobre a psicologia da educação cristã, didática, métodos de ensino entre outros. Clique aqui e saiba mais!

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I. Levi, a tribo sacerdotal

Há pelo menos quatro homens na Bíblia chamados por este nome. Um era o apóstolo de Jesus Cristo mais conhecido como Mateus (Mc 2.14), autor do primeiro Evangelho; outros dois foram ancestrais de Jesus (Lc 3.24,29). Mas o Levi de que falamos este trimestre foi o terceiro filho de Jacó com Lia, filha de Labão (Gn 29.34).

  • Maldição transformada em benção

O que é inusitado na biografia de Levi é que ele além de ter participado da conspiração contra José (Gn 46.11), foi também amaldiçoado por seu pai Jacó devido seu “furor” e “ira” quando associou-se a seu irmão Simeão na terrível vingança contra os homens de Siquém, pelo fato de sua irmã Diná ter sido violada (Gn 34).

Não obstante as palavras de Jacó que pareciam não prever bom futuro para os descendentes de Levi, Deus resolveu transformar a maldição em benção, e tomou para si os descendentes de Levi como suas primícias dentre as demais tribos de Israel, elegendo-os e consagrando-os para o serviço no tabernáculo e no templo do Senhor (Nm 1.47-54).

Os levitas parecem ter aprendido com o tempo um profundo senso de temor a Deus, como se pode ver no episódio em que os israelitas adoravam o bezerro de ouro enquanto Moisés estava no monte recebendo os mandamentos do Senhor. Moisés em sua justa indignação convocou para junto dele os que eram pelo Senhor. “Todos os levitas se juntaram a ele” (Ex 32.26b, NVI).

A punição dos israelitas foi severa, mas necessária para demonstrar que em face da santidade de Deus a rebelião não seria tolerada: Moisés ordenou que cada levita pegasse sua espada, percorresse o acampamento de tenda em tenda e desse cabo da vida dos idólatras que veneraram o bezerro de ouro. Os levitas fizeram prontamente conforme ordenado (v. 28). A resposta de Moisés para eles foi: “Hoje vocês se consagraram ao Senhor, pois nenhum de vocês poupou o seu filho e o seu irmão, de modo que o Senhor os abençoou neste dia” (v. 29). A maldição de Jacó estava revertida em benção pelo grande Abençoador! Das trevas, Deus suscitou à luz!

A sabedoria e a bondade de Deus são realmente surpreendentes. Vejamos nossa situação: outrora, “filhos da ira” (Ef 2.3), agora, porém, “filhos de Deus” (Jo 1.12). Do reino das trevas, por este Deus maravilhoso e piedoso, fomos transportados para o reino do Filho do seu amor (Cl 1.13). Que futuro tínhamos, à parte de tão grandiosa dádiva? Que fim merecíamos pelos mais miseráveis pecados que cometemos outrora? Mas “onde abundou o pecado, superabundou a graça”! Como dizia John Newton (séc. 18), no belíssimo clássico “Amazing Grace”,

Graça maravilhosa! Como é doce o som
Que salvou um miserável como eu!
Eu estava perdido, mas agora fui encontrado
Era cego, mas agora vejo

O serviço especial de um levita começava com sua consagração, em torno dos 25 anos. Discute-se se havia um ritual comum de consagração dos levitas, ou se os rituais descritos no Pentateuco, especialmente em Número 8, foram apenas rituais de inauguração do ofício levítico. Em todo caso, como destaca P. Ellingworth [1] os sacerdotes e levitas eram considerados “consagrados” (Lv 21.6; 1Sm 7.1), isto é, tornados sagrados ou santos por Deus para o trabalho realizado no tabernáculo, lugar santificado pela presença especial de Deus.

Na época anterior à construção do templo por Salomão, os levitas eram responsáveis pelo transporte do tabernáculo e de seus utensílios, toda vez que o acampamento se mudava para outra região. Eram encarregados da guarda e conservação do tabernáculo e de todos os seus móveis e utensílios, embora fossem proibidos de tocar em qualquer móvel sagrado, ou no altar, enquanto os sacerdotes não os cobrissem (Nm 1.50-53; 3.6-9; 4.1-33).

Auxiliavam como subordinados dos sacerdotes, preparavam os pães da proposição e faziam todos os assados ligados ao sacrifício. Ajudavam os sacerdotes a matar e esfolar os animais para o sacrifício e examinavam os leprosos, conforme a prescrição da Lei.

Durante os dias de Davi, com a reforma no culto promovida por aquele monarca de Israel e que era também grande músico, os levitas foram divididos em quatro classes: (1) assistentes dos sacerdotes no trabalho do santuário; (2) juízes e escribas; (3) porteiros e (4) músicos e cantores. Essas classes foram subdivididas em grupos, que serviam cada um por seu turno (1Cr 24-25; Ed 6.18).

É correto chamar cantor evangélico de levita? Para outros detalhes sobre a função dos levitas, leia este nosso artigo aqui: https://artigos.gospelprime.com.br/o-que-significa-levitas-cantores/

Os levitas passavam a assumir o ofício na juventude e se aposentavam aos 50 anos, mas depois disso tinham ainda liberdade para permanecer no templo como superintendente ou dar assistência a seus jovens sucessores (Nm 8.25,26).

Ao contrário das outras tribos de Israel, os levitas não receberam herança territorial na terra prometida. Sua porção era o próprio Deus (Nm 18.20), que ordenou que 48 cidades fossem separadas para eles, juntamente com pasto suficiente para o seu gado.

Não foi à toa que a família do levita e músico Asafe compôs o Salmo 73, onde encontramos este bonito verso: “A quem tenho eu no céu senão a ti? E na terra não há quem eu deseje além de ti. A minha carne e o meu coração desfalecem; mas Deus é a fortaleza do meu coração e a minha porção para sempre” (Sl 73.25,26). Quem dera tivéssemos nós, mesmo não-levitas, este profundo sentimento de suficiência em Deus! Quem dera Cristo fosse a grande ambição de nossa vida, como disse Paulo: “Quero conhecer a Cristo…” (Fp 3.10) e “Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra” (Cl 3.2).

II. O sumo sacerdote

Sumo sacerdote quer dizer “sacerdote-chefe” ou “grande sacerdote”, que são traduções possíveis das expressões que definem este ofício (Lv 21.10; 2Cr 19.11). O sumo sacerdote era o chefe religioso máximo de seu povo.

Arão, irmão mais velho de Moisés, ocupou esta posição inicialmente dentro do sacerdócio levítico, que era transferida sempre ao primogênito de cada homem que ocupasse o cargo. Apesar de em tempos antigos tomarmos conhecimento da existência de outros sacerdotes do Senhor (ao menos Melquisedeque, rei de Salém – Gn 14.18), a partir de Arão, os demais sacerdotes deveriam ser da linhagem araônica.

Diferentemente dos demais levitas, cujo trabalho seria até os cinquenta anos, o sumo sacerdote nos tempos primitivos tinha cargo vitalício, embora nos tempos do Novo Testamento mudanças parecem ter ocorrido, com interferências políticas e rodízio entre os sacerdotes (Jo 11.49-51; Lc 3.2).

  • Distinção entre os demais sacerdotes

O sumo sacerdote distinguia-se dos outros membros da classe sacerdotal pelas roupas que usava, pelas funções que desempenhava e pelas exigências particulares impostas a ele. Só ele vestia a estola sacerdotal ou éfode, e só ele trazia o Urim e o Tumim no “peitoral do juízo”, pelo qual os judeus consultavam ao Senhor sobre questões difíceis (Ex 28.15-30).

Sobre o Urim e o Tumim, leia este nosso outro artigo: https://artigos.gospelprime.com.br/o-que-significa-urim-e-tumim-e-como-eram-usados-na-biblia/

Todas as vestes e adereços que estavam sobre o sumo sacerdote simbolizavam a “glória e ornamento” (Êx 28.40) que Deus colocava sobre seus sacerdotes, dignificando-os e santificando-os para ministrarem em seu nome (Ex 28.3). Foi por não honrar a santidade de Deus, que os sacerdotes Nadabe e Abiú, filhos de Arão, foram fulminados por Deus quando compareceram diante dEle levando fogo estranho que Deus não ordenara (Lv 10.1-2). Desde o começo do ofício sacerdotal levítico, Deus estava estabelecendo a seriedade com que tão importante ofício deveria ser tratado: “Serei santificado naqueles que se chegarem a mim, e serei glorificado diante de todo o povo” (Lv 10.3).

  • Dignidade, zelo e santidade no contexto cristão

Hoje, nossa vestimenta de dignidade e santidade é Cristo, de quem devemos nos revestir (Rm 13.14). Apenas Cristo é sumo sacerdote sobre a Igreja (o “grande sumo sacerdote” – Hb 4.14), mas todos os crentes são sacerdotes com ele (1Pe 2.9; Ap 5.10), devendo viver dignamente neste mundo, exalando o bom perfume de Cristo (2Co 2.15), testemunhando da glória de Deus (Ef 5.1) e sendo santos como Deus santo é! (Lv 20.7; 1Pe 1.16).

Como disse o apóstolo Paulo, “Que os homens nos considerem como ministros de Cristo, e despenseiros dos mistérios de Deus. Além disso requer-se dos despenseiros que cada um se ache fiel” (1Co 4.1,2). Para quem acha que não importa o bom testemunho público, que pese essa exortação paulina! Precisamos ser dominados por um profundo zelo, temor e santidade ao Senhor! Sem santificação ninguém verá a Deus (Hb 12.14).

O casal Ananias e Safira, quando pensou que podia levar uma oferta maculada pela mentira aos pés dos apóstolos, semelhantemente à Nadabe e Abiú, foram fulminados por Deus (At 5.1-10). Sobre uma tal Jezabel, que se dizia profetiza na igreja de Tiatira, mas que estava levando os servos do Senhor à prostituição e à idolatria, a ameaça de Cristo é contundente:  “Eis que a porei numa cama, e sobre os que adulteram com ela virá grande tribulação, se não se arrependerem das suas obras. E ferirei de morte a seus filhos, e todas as igrejas saberão que eu sou aquele que sonda os rins e os corações” (Ap 2.22,23). Deus não se tornou menos santo, nem exige menos santidade da Igreja do que dos levitas de Israel! A porta continua estreita e o caminho continua apertado

Ó Igreja do Deus vivo, zelemos pela santidade de Deus! Como dizia o quacre George Fox (séc. 17), “Estremecei diante da Palavra do Senhor!”.

III. Direitos e deveres dos levitas

Visto que não tinham herança terrena, e sua dedicação era exclusiva para o serviço do Senhor, os levitas deveriam receber os dízimos dos frutos do campo, dos rebanhos, dos primogênitos e certas porções das ofertas sacrificiais do povo como alimento para sua família (Nm 18.24).

E os próprios levitas que recebiam os dízimos dos demais israelitas, deveriam por sua vez entregar um dízimo (a décima parte) aos sacerdotes (Nm 18.26). Ou seja, o dízimo era para “mantimento” na Casa do Senhor (Ml 3.10), para mantimento dos que serviam no altar. Nem toda oferta era queimada no altar, uma boa parte dela era tomada pelos levitas e sacerdotes para sua alimentação. Por isso se diz “viver do altar”.

Há um princípio aqui que não foi removido, antes ratificado no Novo Testamento: os obreiros do Senhor são dignos de serem mantidos pela Igreja, se vocacionados por Deus para dedicarem-se integralmente ou exclusivamente em sua obra.

O próprio Jesus afirmou aos seus discípulos: “E ficai na mesma casa, comendo e bebendo do que eles tiverem, pois digno é o obreiro de seu salário” (Lc 10.17). E o apóstolo Paulo ratificou: “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina” (1Tm 5.17; “duplicada honra” aqui é “duplos honorários”, ou seja pagamento dobrado!). E ainda exortou a igreja a recompensar os que trabalham no ensino da Palavra: “E o que é instruído na palavra reparta de todos os seus bens com aquele que o instrui” (Gl 6.6). Mesmo Paulo que havia optado por continuar trabalhando secularmente para se manter, não recusou em momento algum receber ofertas e doações das igrejas por onde passava, antes considerava tais atos generosos um “cheiro de suavidade e sacrifício agradável e aprazível a Deus” (Fp 4.18).

Esses são os textos que muitas pessoas evitam citar, para não se colocarem sob constrangimento. Entretanto, são verdades e princípios da Palavra de Deus que não podemos simplesmente fazer vista grossa, ou ignorar em razão da má fé de muitos falsos obreiros hoje que, como lobos devoradores, têm sacrificado as ovelhas para viver às custas delas. Não podemos nivelar por baixo! Há homens e mulheres de Deus trabalhando com seriedade pelo reino, e nada mais justo do que darmos-lhes todo subsídio necessário para que prossigam avante, especialmente, como destaca Paulo, os que trabalham na palavra e na doutrina!

  • Distinção e santidade entre os demais israelitas

Levitas e sacerdotes deveriam distinguir-se entre os demais israelitas, a começar pela exclusividade deles na organização do culto levítico, passando pelas vestimentas, e por obrigações morais que eram exigências divinas. Isso os separava do restante da comunidade; conferia-lhes privilégios especiais, assim como acesso ao santuário; e os tornava subordinados a regulamentações específicas relacionadas às responsabilidades cultuais, como, por exemplo:

  1. Vestir calções de linho (Ex 28.42)
  2. Lavar-se (Ex 30.17-21; 40.31,21)
  3. Vestir o colete sacerdotal (Lv 8.7)
  4. Abster-se de bebida fermentada quando exercendo suas funções (Lv 10.8-11)
  5. Participar de funerais somente de parentes próximos (Nm 21.1-6)

Os levitas deveriam ser uma referência de integridade moral para todo o povo hebreu, e um exemplo de santidade na adoração ao Senhor.

Em Cristo, temos nós também os salvos muitos privilégios: sermos adotados por Deus como “filhos amados” (Ef 5.1; 1Jo 3.1,2); sermos feitos templo e morada do Espírito, que o mundo não pode receber (Jo14.17; 1Co 6.19,20); termos o nome escrito no livro da vida (Lc 10.20); vivermos a maravilhosa experiência dos dons espirituais (1Co 12-14); desfrutarmos do auxílio divino para vencermos as tribulações desta vida (Rm 8.3,37); termos a esperança de um dia habitarmos com Deus no céu para todo sempre (Jo 14.1-3).

Entretanto, como já ressalvado por Jesus, “a quem muito é dado, muito será cobrado” (Lc 12.48). Assim, pesa sobre nós também semelhante responsabilidade que pesava sobre os levitas: o de zelar pela glória de Deus diante dos homens! Somos sal da terra e luz do mundo (Mt 5.13,14), e trazer o tempero da verdade e a luz da santidade de Deus para este mundo não é um ponto facultativo, mas obrigação nossa! Disse Jesus: Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5.16).

Não somos levitas, mas, mais que isso, somos a “geração eleita”, “nação santa”, “o sacerdócio real” o “povo adquirido” por Deus com um nobre propósito: “para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9). A Igreja do Senhor deve ser uma referência de ética e moralidade para este mundo saturado de mentira, corrupção, traição e morte! O mundo deve olhar para nós e ver a glória de Deus resplandecendo em nosso rosto, como os israelitas viram o semblante irradiante de Moisés ao descer do Sinai. Nossas palavras precisam ser honestas, nossas atitudes devem ser corretas e coerentes com nossa pregação.

Como dizia Pedro, “Tendo o vosso viver honesto entre os gentios” (1Pe 2.12).

Conclusão

Um dos princípios defendidos pela Reforma Protestante no século 16 foi a do “sacerdócio universal”, ou seja, o direito de todo crente, sem a obrigatoriedade de mediadores humanos que não o próprio Senhor Jesus, ministrar culto ao Senhor e participar ativamente das obras do Reino. Não estamos mais sujeitos à autoridade “infalível” de um papa romano, pois agora “cada um de vós tendes…” (1Co 14.26) algo a oferecer ao Senhor. Sim, somos sacerdotes, não segundo a linhagem de Levi, mas segundo a linhagem espiritual de Cristo! Entretanto, assumamos nossa responsabilidade, cumpramos nossos deveres com temor e tremor e adoremos ao Senhor na beleza da sua santidade (Sl 96.9).

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REFERÊNCIAS

[1] Novo Dicionário de Teologia Bíblica, Vida, p. 1136



Fonte: Gospel Prime