Reino Unido diz que Bíblia ‘não é de paz’ pra negar asilo a cristão iraniano

O departamento de imigração da Reino Unido está sob forte crítica por citar passagens violentas da Bíblia como base para rejeitar uma reivindicação de refúgio de um cidadão iraniano que se disse convertido ao cristianismo por ser uma “religião pacífica”.

O Ministério do Interior – que é responsável pelo tratamento da imigração, segurança e lei e ordem – usou versos dos livros de Levítico, Êxodo e Apocalipse em uma tentativa de argumentar que o cristianismo dificilmente poderia ser descrito como uma fé “pacífica”.

A solicitação de asilo foi negada na última terça-feira, 19 de março, segundo informações do jornal The New York Times. O Reino Unido, que já foi um dos maiores redutos de cristãos do mundo, tornou-se lugar hostil aos seguidores de Jesus, além de abrir portas para imigrantes da religião islâmica.

O caso atraiu uma reprovação da Igreja da Inglaterra, e defensores da imigração denunciaram a decisão como outro exemplo dos métodos severos do Ministério do Interior. A situação foi trazida a público porque o representante legal do cristão iraniano que compartilhou os detalhes da carta com a negativa ao pedido de asilo nas redes sociais.

O homem, que não foi identificado, havia abandonado o islamismo e apresentado a queixa em 2016, pontuou o responsável pelo setor de imigração e representante legal, Nathan Stevens, no Twitter. Não ficou claro se o homem fez de sua conversão uma base para sua reivindicação.

No entanto, o Ministério do Interior usou extensas citações da Bíblia, tais como “você perseguirá seus inimigos, e eles cairão pela espada antes de você”, de Levítico, como evidência contra a alegação do solicitante de asilo sobre o cristianismo.

“Esses exemplos são inconsistentes com sua afirmação de que você se converteu ao cristianismo depois de descobrir que é uma religião ‘pacífica’, em oposição ao islã que contém violência, raiva e vingança”, dizia uma carta de rejeição que Stevens compartilhou trechos da Internet.

O assistente social da imigração disse que ficou chocado com o conteúdo da carta. “Eu vi muito ao longo dos anos, mas até fiquei realmente chocado ao ler essa crítica mordaz incrivelmente ofensiva sendo usada para justificar uma recusa de asilo”, escreveu Stevens no Twitter.

Não foram disponibilizados maiores detalhes sobre o iraniano requerente de asilo. A repercussão negativa foi tamanha que o Ministério do Interior se distanciou da decisão, embora tenha confirmado que a carta era autêntica: “Esta carta não está de acordo com nossa abordagem política para reivindicações baseadas em perseguição religiosa, incluindo conversões para uma fé em particular”, disse um porta-voz do departamento em um comunicado enviado por e-mail.

“Casos de asilo baseados em perseguição religiosa e envolvendo conversão religiosa exigem muita perícia para avaliar”, disse Colin Yeo, um advogado especializado em imigração em Garden Court Chambers. “É muito difícil dizer se a pessoa está dizendo a verdade e você precisa pensar sobre quais são as motivações da pessoa”, acrescentou Yeo, que também é o editor do site de informações sobre imigração e asilo Free Movement, em uma entrevista à agência Reuters.

“Mas ir tão longe a ponto de cavar versos específicos para tentar justificar uma afirmação parece extremamente bizarro”, acrescentou Yeo. “Já vi muitos casos em que o Ministério do Interior não acredita que a pessoa não tenha se convertido do islamismo ao cristianismo, mas nunca vi nada como isso”, lamentou Yeo.

A abordagem do Ministério do Interior até levou a Igreja da Inglaterra a dar uma resposta ao caso: “Estou extremamente preocupado que um departamento do governo possa determinar o futuro de outro ser humano com base em uma compreensão tão profunda dos textos e práticas das comunidades religiosas”, disse o bispo Paul Butler, de Durham, em um comunicado.

“Usar trechos do livro do Apocalipse para argumentar que o cristianismo é uma religião violenta é como argumentar que um relatório do governo sobre o impacto da mudança climática está defendendo secas e inundações”, acrescentou.

Cynthia Orchard, assessora jurídica da instituição de caridade Asylum Aid, chamou o documento de “uma carta de decisão aterradora”, mas disse que era apenas um dos “muitos outros exemplos do Ministério do Interior que tomam decisões terrivelmente injustas sobre asilo e outros assuntos”.

Em 2018, o Ministério do Interior esteve sob holofotes depois que muitos residentes legais de longa data de ascendência das Índias Ocidentais e do Caribe foram declarados erroneamente imigrantes ilegais, e alguns foram detidos e submetidos a ameaças de deportação.

A reação do público à forma como o governo tratou muitos dos casos da “geração Windrush” cresceu a tal ponto que a secretária do Interior, Amber Rudd, renunciou ao cargo e a primeira-ministra Theresa May emitiu um pedido de desculpas pelo tratamento dos moradores.

No ano passado, o número de pessoas que receberam asilo na Grã-Bretanha caiu 26% em comparação com os 12 meses anteriores. No entanto, 39% dos recursos apresentados contra as decisões do Ministério do Interior foram bem sucedidos. Stevens, o assistente social do cristão iraniano, disse que ele também planejava recorrer da decisão e apresentaria uma queixa formal.



Fonte: Gospel Mais